Por que o Google+ não funcionou?


No início do mês, o Google anunciou que sua rede social definitivamente está desativada. A decisão ocorreu depois da rede sofrer brechas de segurança que colocaram em risco dados de mais de 50 milhões de usuários. O objetivo do Google+, quando foi criado em 2011, era concorrer com o Facebook, que crescia aceleradamente na época.

Mesmo com seu fim, o Google+ conseguiu embalar o Hangouts e o Google Fotos. E tudo isso depois da consultoria americana eMarketer projetar um crescimento de 2,62 bilhões de usuários para 3,02 bilhões em 2021. No entanto, o Google+ tinha 345 milhões de usuários ativos mensalmente, segundo os dados divulgados em 2017.

No total, eram mais de 2 bilhões de usuários com conta. Entretanto, 90% das visitas duravam menos de 90 minutos. E comparado com o Facebook, o Google+ nunca conseguiu representar um parcela significativa do faturamento da empresa, que teve um foco muito maior no YouTube.

Dentro desse tempo, participantes que presenciaram as decisões internas tomadas durante o desenvolvimento inicial da rede, encontraram diversos erros críticos cometidos precocemente. O que pode ter justificado o fim do Google+.

Google + e seu modelo assimétrico

Modelo de acompanhamento simétrico é aquele em que ambas as partes precisam concordar ao estabelecer uma conexão. Esse modelo é utilizado tanto no Facebook quanto no LinkedIn, por exemplo. Porém, os fundadores do Google+ queriam um crescimento rápido no gráfico social. E isso porque, na época, eles tinham conhecimento que vencer o Facebook era na questão de escala.

Agora, um modelo de acompanhamento assimétrico é aquele em que uma parte pode unilateralmente estabelecer um relacionamento sem a interação da outra parte. Um modelo que foi utilizado pelo Google+ e que é utilizado pelo Twitter.

Para os fundadores, esse modelo poderia produzir o crescimento desejado, já que não exigia “parceria”. Por um lado, eles estavam corretos. Porém, eles queriam que rede social fosse uma rede de vínculos próximos, usado para manter o contato com amigos e familiares. Só que o modelo tem uma deficiência, que é um canal fraco para comunicação bidirecional.

No caso, quando você “segue” alguém, significa que você quer ouvir o que a pessoa tem a dizer. No entanto, isso não significa que eles estão ouvindo de volta. Esse modelo unidirecional, na verdade, mostra-se uma má escolha para uma rede de interligação, até porque os relacionamentos de proximidade dependem da comunicação bidirecional frequente.

Seres humanos estão motivados para se comunicar. Mas eles só são motivados se pensarem que as pessoas estão realmente ouvindo. Gritar para o vazio se torna realmente desmotivador. Outra causa foi a falta de feedback, que também desmotiva.

Uso baseado na classificação

Um ponto que também contribui na falta de confiabilidade na comunicação foi o uso do ranking. No caso, o conteúdo em stream do Google+ foi classificado usando um algoritmo sofisticado para que o conteúdo considerado como mais importante ou interessante aparacesse na parte superior.

Para coisas importantes, o usuário quer total controle sobre o que é lido. Porém, não necessariamente aquilo que você quer ler, estará no topo. O uso do ranking, em geral, tira o controle do leitor. Afinal, a decisão do que é importante era feita pela própria rede. Por um lado, é importante ter uma espécie de “curador” automatizado, mas não para tudo.

Nisso, os usuários passaram a entender que enviar uma postagem para outro usuário tinha uma alta probabilidade de nunca alcançar a atenção do destinatário. Com isso, eles passavam a usar outros meios.

Com o tempo, o Google+ até incluiu o recurso de notificações, com uma interface separada, exibindo uma lista de mensagens enviadas especificamente para o usuário. No entanto, a estratégia chegou muito tarde e o fato de terem criado uma interface separada, ao invés de corrigir o erro, enfraqueceu a experiência geral do usuário.

Crescimento não-orgânico

Mesmo com os problemas mencionados, no lançamento, o Google+ se mostrava muito novo e vibrante. Muitos usuários estavam engajados e tratando de tópicos interessantes. Isso resultou em um crescimento lento, mas orgânico. Porém, os criadores decidiram integrar usuários do Google no Google+ de maneira massiva, até porque eles estavam desesperados para vencer o Facebook.

Isso fez com que a rede social atingisse milhões de usuários rapidamente. Mas muitos dos novos usuários não interagiam, classificando a rede social como cidade fantasma, já que estava cheio de usuários não interativos. Nesse caso, o projeto deveria criar usuários, mas criou contas.

Rescaldo

2014 definiu que a rede social não seria o novo Facebook. Com a entrada de David Besbris como novo líder, a empresa tomou uma estratégia nova, que faria o Google+ desistir do objetivo de ser uma rede de laços estreitos. Ao invés disso, eles iriam transforma-la em uma rede de afinidade.

Ou seja, comunidades de pessoas que compartilham interesses comuns, mas que não necessariamente se conhecem na vida real. A ideia era que muitas comunidades baseadas em afinidade estavam indo bem, com a ideia de ser bem-sucedido, concentrando-se nesse nicho. Então, ao invés de ser o próximo Facebook, seria o próximo Tumblr.

Até haviam aspectos de design superiores ao Facebook, mas nada que realmente conseguisse segurar. No fim, o Google+ não falhou porque o Facebook é invulnerável, mas sim por falhas profundas incorporadas a ele desde o início.

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FONTES: 1 2